Ataque à Cultura: Nunes demole Teatro de Contêiner às vésperas do Dia Mundial do Teatro e ignora pedidos de MinC e Funarte
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Espaço referência nacional foi destruído em dois dias sem aviso prévio; governo federal buscava terreno para reconstrução enquanto prefeitura gastou dinheiro público para demolir em vez de transferir

A Prefeitura de São Paulo demoliu na última semana o Teatro de Contêiner Mungunzá, após dez anos de funcionamento na rua dos Gusmões, no centro da cidade. A demolição foi concluída na noite de domingo (22), às vésperas do Dia Mundial do Teatro, celebrado em 27 de março. A ação da gestão Ricardo Nunes (MDB), em parceria com o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), gerou repúdio do Ministério da Cultura e da Funarte, além de mobilizar a sociedade civil.
A remoção do telhado teve início no sábado (21) e a demolição completa do complexo, com a retirada dos materiais para um terreno municipal na Avenida do Estado, foi concluída no dia seguinte. Segundo os integrantes da companhia, a estrutura foi demolida sem comunicação prévia, sem apresentação de alvará e sem identificação de responsável técnico. Pior: havia uma disputa judicial ainda em andamento.
"Simplesmente a gestão do terreno disse que não irá receber [os contêineres]. Os contêineres vão ficar na rua", denunciou a Cia. Mungunzá nas redes sociais. "Estão gastando dinheiro público para destruir um dos teatros mais importantes do país", afirmaram.
O Ministério da Cultura e a Funarte manifestaram perplexidade e repúdio em nota oficial. "É estarrecedor que o fato aconteça às vésperas do Dia Mundial do Teatro. Desde a total interdição do Teatro, em janeiro de 2026, o MinC e a Funarte vêm solicitando à Prefeitura de São Paulo que retome as negociações com a Cia Mugunzá para a reinstalação do Teatro de Contêiner em outro terreno municipal, como já havia sido pactuado. Lamentavelmente, a Prefeitura tem se mantido irredutível em apresentar qualquer alternativa para a permanência das atividades do Teatro de Contêiner".
"O Teatro de Contêiner e a Cia Mugunzá são referências nacionais e internacionais, devem ser protegidos, fomentados, e não destruídos. Teatro não se derruba!", afirmou o comunicado oficial dos órgãos federais.
Marcos Felipe, ator e gestor do espaço, questionou a ação: "Por que vocês [prefeitura] gastaram dinheiro público retirando essas estruturas daqui e levando para a avenida do Estado ao invés de levar para a rua Helvétia, onde ele será reconstruído?" Segundo ele, a companhia havia assinado um acordo para a realocação do espaço para a rua Helvétia em dezembro de 2025.
O teatro foi erguido em 2016 com recursos próprios da companhia, num investimento de cerca de R$ 300 mil à época. A Cia. Mungunzá ocupou o terreno público por uma década, promovendo mais de 4 mil ações artístico-sociais, com espetáculos de artes cênicas, música e dança. O espaço se tornou referência nacional na cena teatral paulistana.
A disputa entre a prefeitura e a companhia se arrastava desde maio de 2025, quando o grupo foi surpreendido por uma notificação extrajudicial de despejo que determinava a desocupação do espaço em 15 dias. Em setembro, a Justiça fixou o prazo para 90 dias, mas em janeiro de 2026 a 5ª Vara da Fazenda Pública decidiu que a Cia. Mungunzá havia perdido o prazo para deixar o local.
"Continuamos o processo pleiteando que a prefeitura tivesse cuidado com o teatro e fizesse a mudança para rua Helvetia. O desembargador pediu para a prefeitura se pronunciar, mas antes da decisão do desembargador, eles correram e destruíram tudo. Nesse momento estamos tentando recolher os cacos e achar uma saída jurídica e política, estamos todos assustados com tamanha violência e desprezo", afirmou Marcos Felipe.
A nota do MinC informa que o governo federal, por meio da Superintendência do Patrimônio da União, estava empenhado na busca de um terreno de sua propriedade que pudesse ser cedido para a reconstrução do Teatro – justo enquanto a prefeitura gastava recursos públicos para demolí-lo.
A Funarte acolheu as atividades da Cia. Mungunzá no Complexo Cultural Funarte São Paulo. Entre 3 de abril e 24 de maio, a fundação recebe os espetáculos gratuitos Luis Antonio-Gabriela, Elã e anonimATO.
O caso expõe a política cultural da gestão Nunes: enquanto o governo federal tentava viabilizar a permanência de um equipamento cultural de referência nacional, a prefeitura optou por destruí-lo às pressas "O uso que o Teatro de Contêiner consolidou no campo cultural da cidade é maior do que qualquer ressentimento pessoal por parte dos governantes de São Paulo", denunciou a companhia.



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