Cultura | "Zumví Arquivo Afro Fotográfico": IMS Paulista exibe 400 imagens que documentam três décadas de luta e cultura negra na Bahia
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Exposição reúne acervo de arquivo fundado em 1990 por jovens negros de Salvador com o lema "fotografar hoje para o futuro"; mostra inclui movimentos políticos, blocos afro, religiosidades e cenas do cotidiano

O IMS Paulista recebe até 23 de agosto a exposição "Zumví Arquivo Afro Fotográfico", que reúne cerca de 400 fotografias fundamentais para a história da fotografia e do movimento negro no Brasil. A mostra percorre movimentos políticos, blocos afro, religiosidades e mercados populares, além de práticas culturais e cenas do cotidiano que revelam a amplitude e a densidade desse acervo histórico.
Fundado em 1990 por Lázaro Roberto, Aldemar Marques e Raimundo Monteiro, três jovens negros das periferias de Salvador, o Zumví nasceu em um contexto histórico adverso, em meio à ditadura militar e aos desafios de ser negro na cidade mais negra fora do continente africano. Com o lema "fotografar hoje para o futuro", esses fotógrafos afrodescendentes se comprometeram com o registro das atividades culturais, políticas e a produção de imagens da cultura afro-brasileira.
O nome "Zumví" nasce da junção de dois elementos visuais: "Zum", da lente fotográfica, e "Vi", do verbo ver. "É a capacidade de aproximar com o olhar o que está longe — de enxergar além da superfície e trazer para perto a verdade da imagem negra", explica Lázaro Roberto, fotógrafo e fundador do arquivo.
Sem tal pretensão inicial, esses fotógrafos criaram um "quilombo visual", desenvolvendo uma afro-maneira de registrar e criando um arquivo de memórias imagéticas dos negros, algo jamais feito no Brasil contemporâneo. Num período em que a população negra raramente era retratada por fotógrafos também negros, o Zumví documentou a vida dos afrodescendentes na Bahia, reunindo hoje cerca de 50 mil fotografias de sete fotógrafos.
A exposição no IMS Paulista, com curadoria de Helio Menezes e assistência de curadoria de Ariana Nuala, apresenta uma seleção que evidencia a força, a beleza e as lutas do povo negro ao longo de três décadas. Entre os destaques estão fotografias de protestos no Dia Nacional da Consciência Negra, grupos de crianças em terreiros como o Ilê Axé Opô Afonjá, eventos de blocos afro e manifestações políticas que marcaram a história do movimento negro baiano.
O acervo continua aberto a receber novos conjuntos fotográficos e cumprir sua missão de "preservar e promover a memória afirmativa afro-brasileira através da educação, do fomento e da difusão da fotografia feita pelo povo negro". Hoje, o arquivo é conduzido por Lázaro Roberto com auxílio do sobrinho, o historiador José Carlos Ferreira.
A exposição também apresenta recursos de acessibilidade, incluindo audiodescrições e informações técnicas de obras para pessoas com deficiência. A programação paralela inclui a abertura em 28 de março, apresentação do Samba Garoa do Recôncavo da Casa Mestre Ananias em 29 de março e encontro de formação em 11 de abril.
O Zumví representa mais do que um arquivo fotográfico: é memória viva em imagens, um quilombo visual que transforma memória em resistência, imagem em voz, passado em futuro. Cada fotografia preservada é um ato de afirmação e um registro de que a história do povo negro brasileiro será contada por suas próprias mãos e olhares.
Zumví Arquivo Afro Fotográfico
Local: IMS PaulistaAvenida Paulista, 2424 – Bela Vista, São Paulo/SP
Período: 28 de março a 23 de agosto de 2026
Horário: Terça a domingo e feriados, das 10h às 20h (fechado às segundas). Última admissão 30 minutos antes do encerramento
Entrada: Gratuita
Classificação: Livre
Mais informações: ims.com.br | expozumvi.ims.com.br



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