Empresa laranja investigada por esquema na Prefeitura usou terceirizados para fazer campanha de Nunes
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Quarter mobilizou guias de turismo contratados pela gestão municipal como cabos eleitorais pagos em dinheiro vivo; firma acumula R$ 200 milhões em contratos com SPTuris e não consta na prestação de contas da campanha

A agência MM Quarter, pivô de uma crise que derrubou o presidente da SPTuris e o secretário-adjunto de Turismo na Prefeitura de São Paulo, mobilizou sua equipe permanente e recrutou guias de turismo terceirizados pela gestão Ricardo Nunes (MDB) para trabalharem como cabos eleitorais na campanha à reeleição do prefeito da capital, em 2024. Depoimentos e comprovantes de depósito obtidos pelo colunista Demétrio Vecchioli, do Metrópoles, mostram cabos eleitorais de Nunes sendo pagos pela Quarter, sem nota fiscal. A agência não aparece na lista de fornecedores apresentada pela campanha do prefeito ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Imagens obtidas mostram que, entre as pessoas que palestraram sobre como convencer eleitores a votarem em Nunes, estavam Rodolfo Marinho, então adjunto do Turismo e agora investigado pela CGM como sendo sócio oculto da Quarter, e Marcelo Correia de Moraes, que a coluna vem mostrando ser o operador da Quarter. Ele é o "contato institucional" entre Quarter e SPTuris, segundo a própria empresa municipal de Turismo.
Os guias de turismo, que são treinados para dar informações a populares nas ruas, foram divididos em grupos e enviados, de ônibus, para os bairros, onde atuaram como cabos eleitorais. Uma equipe ficava no centro sob a coordenação de Gilberto Félix, o Giba. Ele era o principal coordenador da equipe de guias da Quarter e até então protagonista de vídeos publicados nas redes sociais da agência, que atende exclusivamente a Prefeitura de São Paulo.
Após a descoberta, Marinho foi demitido por Nunes, junto com Gustavo Pires, presidente da SPTuris. O prefeito prometeu investigar o caso e punir os responsáveis. Na época da campanha eleitoral de 2024, a Quarter tinha nove contratos de terceirização de mão de obra com a SPTuris. Um décimo acordo, no valor de R$ 67 milhões, foi assinado durante o segundo turno, em outubro daquele ano.
Os depoimentos e registros obtidos pela coluna de Demétrio mostram que a agência recrutava terceirizados a partir de grupos de WhatsApp após ser acionada pela SPTuris. No caso dos guias de turismo, isso era feito pelo grupo "Guias de Turismo Quarter", que, até o mês passado, tinha 547 membros. Só administradores da Quarter podem mandar mensagens no grupo e foi por ali que a agência recrutou, por exemplo, profissionais para o "maior Carnaval de Rua que São Paulo já teve", em janeiro deste ano.
A empresa acumula mais de R$ 200 milhões em contratos com a gestão Nunes desde 2022, sempre intermediados pela SPTuris e sem licitação, usando atas de registro de preços. A Quarter, na prática, é operada pelos irmãos Marcelo Correia de Moraes e Victor Correia de Moraes, mas está formalmente no nome de Nathália Carolina de Silva Souza, que morava em um cortiço na zona norte até 2025, apesar de ter tirado R$ 14 milhões em lucro da agência em 2024.
O uso de funcionários públicos terceirizados como cabos eleitorais pagos por empresa que tem contratos milionários com a prefeitura configura possível crime eleitoral. Se comprovado que houve uso da máquina pública para fins eleitorais, Ricardo Nunes pode responder por abuso de poder político e econômico, com penas que incluem cassação do mandato e inelegibilidade.
A Controladoria Geral do Município (CGM) investiga o caso, assim como o Ministério Público de São Paulo e o Ministério Público do Trabalho, que apuram o esquema de terceirização irregular que envolve a Quarter, a SPTuris e secretarias municipais.



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