Enquanto patrimônio crescia 51%, Enel demitiu 25% dos funcionários em São Paulo
- imprensa5967
- 17 de dez de 2025
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Corte de 7 mil trabalhadores expõe lógica da privatização: maximizar lucro às custas da qualidade do serviço à população

Os sucessivos apagões que atingem São Paulo não são culpa da natureza. Enquanto o patrimônio líquido da Enel no Brasil cresceu 51% entre 2020 e 2025, o número de trabalhadores na capital paulista foi reduzido em 25%. A empresa italiana cortou cerca de 7 mil funcionários em São Paulo no período, passando de 26.962 para 20.185 empregados. Os dados foram levantados pelo Brasil de Fato a partir dos relatórios de administração da própria concessionária.
A redução foi puxada pelos terceirizados, que caíram de 21.114 para 15.521 trabalhadores. Mas até entre funcionários próprios houve corte: de 5.848 para 4.664. Isso em um momento em que a região metropolitana enfrenta crises sucessivas no fornecimento de energia, como o apagão de dezembro que deixou 2,2 milhões de imóveis sem luz e ainda mantém 30 mil clientes no escuro.
Lucro acima do serviço público
Em entrevista ao portal Brasil de Fato, Ikaro Chaves, engenheiro eletricista e ex-funcionário da Eletrobras, explica a lógica perversa: como a receita das distribuidoras é regulada pela Aneel e o consumo de energia é estável, a única forma de aumentar a lucratividade é reduzindo custos. "Eles vão repassar todo o custo com aquisição de equipamentos para o consumidor. Agora, qual é o custo que eles vão gerenciar? O custo de mão de obra", afirma.
Na prática, essa "eficiência" por corte de custos aumenta a vulnerabilidade do sistema. A falta de pessoal para manutenção preventiva deixa a infraestrutura frágil, e a insuficiência de equipes para ações corretivas atrasa a recuperação do serviço em emergências.
"Em condições normais, o sistema elétrico funciona praticamente sem precisar de pessoas, porque já é muito automatizado", explica Chaves. "É nos momentos de instabilidade que a ausência de pessoal de manutenção se torna evidente, pois o sistema não passou pela manutenção preventiva e não há equipe para fazer a manutenção corretiva."
A Enel alega que a redução se deve a "reestruturação societária", mas os números não mentem: menos trabalhadores, menos manutenção, mais apagões. É a privatização operando como sempre opera – transferindo recursos públicos para acionistas privados enquanto degrada o serviço prestado à população.
O fracasso da privatização
A Eletropaulo, empresa estatal criada em 1981, foi privatizada no final dos anos 90 pelo governador Mário Covas (PSDB). Em 2018, a Enel comprou o controle por R$ 5,55 bilhões. Desde então, tem sistematicamente cortado trabalhadores, aumentado as tarifas e reduzido a qualidade do serviço – tudo em nome do lucro para acionistas que vivem na Europa.
O caso da Enel é emblemático do fracasso da doutrina neoliberal que prega a superioridade da gestão privada. A população paulistana paga a conta com apagões cada vez mais frequentes enquanto investidores internacionais lucram com dividendos. O fornecimento de energia elétrica não pode estar subordinado aos interesses de acionistas, mas deve servir à população com qualidade e gestão democrática.



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