Escândalo do Banco Master revela trama entre Tarcísio, maior doador de campanha e privatização fraudulenta da EMAE
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Pastor que doou R$ 2 milhões ao governador tem sigilo quebrado pela CPI; empresa estatal vendida por R$ 1 bi teve caixa de R$ 400 mi zerado em esquema que beneficiou banco falido

A CPI do Crime Organizado do Senado aprovou na última quarta-feira (11) a quebra de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático de Fabiano Campos Zettel, personagem central no escândalo que conecta o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao Banco Master. Zettel é empresário e também atua como pastor ligado à Igreja Lagoinha em Belo Horizonte. Nas eleições de 2022, foi o sexto maior doador individual do país, com repasses de R$ 3 milhões para a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – segunda maior doação – e R$ 2 milhões para a do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), então candidato ao cargo.
Fabiano Zettel, cunhado laranja de Daniel Vorcaro, dono do Master, foi o maior doador da campanha de Tarcísio ao governo. O que se investiga agora é se a doação milionária rendeu uma contrapartida igualmente milionária: a privatização fraudulenta da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (EMAE), que serviu de ponte para injetar R$ 160 milhões no banco falido.
A EMAE é considerada uma empresa estratégica para o estado de São Paulo, atuando no sistema hídrico e na geração de energia, incluindo as usinas de Henry Borden e os reservatórios Billings e Guarapiranga. Ela foi vendida por apenas R$ 1 bilhão, enquanto estudos do próprio governo paulista haviam apontado para um valor potencial de R$ 10 bilhões. A venda aconteceu poucos meses após Tarcísio assumir o governo estadual.
Tarcísio vendeu o controle da empresa ao Fundo Phoenix FIP, cujo investidor de referência era Nelson Tanure. Logo após ser privatizada, a EMAE comprou R$ 160 milhões em debêntures do Banco Master. Antes da privatização, a EMAE tinha R$ 400 milhões em caixa. Um ano depois, o caixa estava zerado.
O esquema foi além. O fundo que adquiriu o controle da EMAE havia usado as ações da empresa Ambipar como garantia – ações que, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), foram artificialmente valorizadas. Uma análise técnica da CVM apontou que houve um "movimento orquestrado" entre Tanure, o Banco Master e Tércio Borlenghi Junior (controlador da Ambipar) com o objetivo de elevar artificialmente o preço das ações da Ambipar. Essa valorização fraudulenta permitiu que as ações servissem de garantia para o financiamento da compra da EMAE. Na sequência, o caixa da estatal foi drenado para o Master, e a empresa foi revendida à Sabesp em outubro de 2025.
Vorcaro atuava no ramo imobiliário em Minas Gerais e era ligado à Igreja da Lagoinha, apresentando um programa pela Rede Super, um dos braços da comunicação da Igreja. Esta é a mesma igreja frequentada por Nikolas Ferreira, bolsonarista de carteirinha e um dos mais estridentes parlamentares da tropa de choque de Bolsonaro. Esta é também a mesma igreja que criou um banco.
O caso escancarou a conexão entre bolsonarismo, igrejas evangélicas e crime organizado financeiro. As investigações sobre o escândalo do Banco Master revelaram uma ligação profunda entre políticos bolsonaristas e o banco de Daniel Vorcaro. O senador Ciro Nogueira, por exemplo, ligado a Bolsonaro, chegou a ameaçar o diretor do Banco Central por este ter impedido a negociata do banco com o BRB.
A privatização da EMAE por um décimo do valor estimado, seguida do desvio de centenas de milhões para beneficiar o banco do cunhado do maior doador da campanha de Tarcísio, configura um dos maiores escândalos de corrupção da gestão bolsonarista em São Paulo. A quebra de sigilo de Zettel pode revelar o fluxo de dinheiro e as conversas que conectam doação de campanha, privatização fraudulenta e lavagem de dinheiro.



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