Operação Bazaar: corrupção na Polícia Civil de SP tem propinas de até R$ 33 milhões e prisão de 9 pessoas pelo MP e PF
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Delegacias viraram "balcões de negócios" onde policiais cobravam milhões para encerrar investigações; esquema envolvia destruição de provas, lavagem com vales-refeição e infiltração em departamentos estratégicos

O Ministério Público de São Paulo, a Polícia Federal e a Corregedoria Geral da Polícia Civil realizaram nesta quinta-feira (5) uma operação contra um esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro instalado em departamentos estratégicos da Polícia Civil de São Paulo. Ao todo, foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, inclusive em unidades policiais, além de 11 mandados de prisão e seis intimações para cumprimento de medidas cautelares diversas da prisão.
Segundo as investigações, policiais civis cobravam até R$ 33 milhões de propina para que inquéritos contra investigados suspeitos de lavagem de dinheiro fossem encerrados. Em uma troca de áudios, um dos investigados disse para outro: "Fui até a delegacia, tá? É referente a uma transferência de (R$) 33 milhões. Ali naquela delegacia, o delegado é 'parceiraço' meu, tá? Você quer que eu faça alguma coisa lá? Tô...Vou aguardar a orientação tua, tá bom?".
A investigação aponta um amplo e estruturado esquema de corrupção policial voltado à proteção de uma organização criminosa especializada em lavagem de dinheiro. O grupo criminoso era composto por doleiros, operadores financeiros e indivíduos com extenso histórico de prática de atos de lavagem de capitais. Entre os alvos da ação estão os doleiros Leonardo Meirelles e Meire Poza, que são apontados como operadores do grupo criminoso.
De acordo com a decisão do juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, o grupo teria transformado delegacias especializadas em um centro de negociações para garantir a impunidade de criminosos. A infiltração dos criminosos atingiu importantes unidades da polícia paulista, como Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais), DPPC e o 16º Distrito Policial, da Vila Clementino.
No 16º DP, as interceptações flagraram operadores do grupo relatando que policiais exigiram o pagamento de R$ 5 milhões para não dar andamento a uma investigação sobre lavagem de dinheiro. Os áudios revelaram o desespero dos criminosos com o inquérito conduzido por um delegado identificado como "João", e a necessidade de "resolver" a extorsão.
Outras conversas interceptadas mostram pagamentos fracionados realizados pelos investigados em diversas ocasiões. Em um dos áudios, um operador do esquema orienta: "Anota aí para mim que eu dei R$ 100 mil pro Deic esses dias, eu não sei se você anotou... e ontem foi mais R$ 110 mil... são R$ 220 mil que eu dei pro Deic aí, anota aí, tá?"
O esquema operava de duas formas principais. Policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre potenciais alvos para cobrança de propina e, a partir desses documentos, enviavam intimações e exigiam pagamentos para não dar andamento às investigações. Paralelamente, doleiros que tomavam conhecimento de investigações em curso ofereciam propina voluntariamente para que os trabalhos fossem interrompidos.
Para garantir a impunidade de suas operações financeiras ilícitas, a quadrilha realizava pagamentos sistemáticos de propina a policiais civis. Em troca dos valores, os agentes públicos transformaram suas delegacias em balcões de negócios, paralisando inquéritos, manipulando investigações e chegando a destruir provas. Um dos atos relatados na investigação foi o conluio para a troca de um disco rígido (HD) apreendido, manobra realizada presencialmente dentro da sede do DPPC (Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania), para subtrair material incriminatório.
Para lavar os recursos de origem ilícita, vindos majoritariamente do tráfico de drogas, o grupo comprava vales-refeição, os famosos "VRs", com dinheiro em espécie. Esses cartões eram então repassados em padarias e "mercadinhos" de fachada, que transferiam os créditos para empresas fictícias. Cléber Azevedo dos Santos, um dos principais alvos da operação, ficou conhecido nas interceptações como “Cléber do ticket”.
Entregas de dinheiro em espécie chegaram a ser combinadas e realizadas no próprio Hangar da Polícia Civil, no aeroporto Campo de Marte, envolvendo o pagamento a um investigador de elite do Serviço Aerotático. Investigadores lotados em delegacias especializadas em fraudes financeiras procuraram os próprios doleiros que deveriam investigar para pedir “dicas”.
Em 2023, o então investigador Marcello Raduan Miguel marcou uma reunião com o doleiro Leonardo Meirelles em busca de uma "consultoria" de como ganhar dinheiro e ideias para “conduzir a vida fora da polícia”. Posteriormente, o policial enviou fotos de um casarão avaliado em R$ 4,5 milhões que havia adquirido, justificando que precisava vender o imóvel. O valor, no entanto, é incompatível com o salário da corporação, sugerindo forte indício do uso de recursos ilícitos.
O delegado da Polícia Civil de São Paulo João Eduardo da Silva recebeu propina para frear investigações e proteger uma rede criminosa que era alvo constante de apurações da corporação. À época dos fatos, entre 2022 e 2023, João Eduardo estava lotado no 16º Distrito Policial, na Vila Clementino. Hoje atua no 35º DP, na Vila Guarani, zona sul da capital. Entre os presos na operação estão três policiais civis, uma doleira e outros investigados. A Justiça determinou a suspensão imediata do exercício das funções públicas dos policiais investigados e o bloqueio de até R$ 5 milhões nas contas bancárias de cada um dos envolvidos no esquema.
A Polícia Civil de São Paulo determinou a realização de apurações administrativas em todas as delegacias onde foram cumpridos mandados de busca e apreensão. A Corregedoria também realizará verificações extraordinárias nos atos de polícia judiciária em que os agentes públicos investigados atuavam.