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Periferia sem verde: obras de parques se arrastam por anos na zona leste, a região de SP com menos áreas verdes por habitante

  • 6 de abr.
  • 2 min de leitura

São Miguel Paulista esperou 14 anos para ter seu primeiro parque; Sapopemba segue sem entrega e figura entre os distritos com menor cobertura vegetal da cidade


Foto: @Gabriela Vasques/Agência Mural
Foto: @Gabriela Vasques/Agência Mural

A zona leste de São Paulo concentra alguns dos bairros mais populosos e densamente habitados da maior cidade da América Latina. É também onde a vegetação é mais escassa, as ilhas de calor são mais intensas e os parques públicos demoram décadas para sair do papel — quando saem. O padrão se repete: promessas anunciadas, obras que se arrastam, comunidades que esperam.


O caso mais emblemático recente é o do Parque Jardim Primavera, em São Miguel Paulista. As obras foram concluídas em 2012, mas o local permaneceu fechado por decisão judicial devido a questionamentos sobre possível contaminação do solo, no terreno onde funcionava o antigo aterro Jacuí, desativado em 1988. A população ficou 14 anos sem acesso ao espaço. 


Para manter o parque fechado, a gestão Ricardo Nunes gastava R$ 1,7 milhão por ano. O dinheiro ia para vigilância e manutenção de uma área inacessível enquanto o bairro não tinha alternativas de lazer. A inauguração da primeira fase aconteceu apenas em março de 2026, com investimento de R$ 250 mil para abertura de 27,3 mil m² – menos de 20% do terreno total de 155 mil m². O restante aguarda estudos e plano de intervenção, sem prazo definido.


A situação em São Miguel Paulista não era exceção. Era a regra: a subprefeitura era a única da cidade que não contava com nenhum parque municipal. Numa região com centenas de milhares de moradores, o verde público simplesmente não existia.


Em Sapopemba – outro distrito da zona leste historicamente negligenciado – o cenário é semelhante. Sapopemba e Itaim Paulista figuram entre as subprefeituras com menor número de área verde por habitante em São Paulo. O Parque Municipal Fazenda da Juta, previsto em lei desde 2017, levou anos para ter obras iniciadas. Já o Parque Sapopemba, com obras de requalificação orçadas em mais de R$ 19 milhões e mais de 50% concluídas, tinha previsão de entrega para o primeiro semestre de 2026 – prazo que os moradores acompanham com ceticismo, acostumados que estão com promessas adiadas.


A desigualdade ambiental tem consequências concretas no cotidiano. Distritos densamente habitados sem arborização são os mais afetados por ilhas de calor e poluição, ficando mais expostos aos efeitos das mudanças climáticas. Quem mora na periferia leste respira um ar diferente de quem vive próximo ao Ibirapuera – e sente isso no próprio corpo.


O contraste com outras regiões da cidade é difícil de ignorar. Enquanto obras de parques na zona leste se arrastam por anos ou décadas, a gestão de Ricardo Nunes encontrou agilidade para ceder gratuitamente o Autódromo de Interlagos ao Lollapalooza 2026, remanejou verbas de políticas sociais para obras viárias e anunciou R$ 1,1 bilhão para um novo eixo viário com parque linear no centro expandido. A pergunta que os moradores da leste fazem é simples: por que para eles o verde nunca chega na mesma velocidade?

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