Racismo: morador de Heliópolis é detido 4 vezes por engano em 7 meses após falhas no Smart Sampa
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Sistema “confundiu” Ailton Alves de Sousa com foragido do MT por homicídio; diferenças de sobrenome, idade e filiação foram ignoradas em abordagens que incluíram prisão em casa, no trabalho e em corrida de rua

O coordenador de departamento pessoal Ailton Alves de Sousa, de 41 anos, um homem negro e morador de Heliópolis, na zona sul de São Paulo, foi conduzido quatro vezes à delegacia por engano nos últimos sete meses. As detenções aconteceram ao sair de casa, no trabalho, ao levar a mãe ao hospital e durante uma corrida de rua. Em todos os casos, policiais militares alegaram que Ailton estava cadastrado no sistema do Smart Sampa como foragido da Justiça por cometer um homicídio no estado de Mato Grosso.
O problema: Ailton nunca foi ao Centro-Oeste e detalhes básicos que deveriam ter evitado as abordagens foram sistematicamente ignorados. O verdadeiro foragido, nascido em Santa Tereza do Oeste (PR), tem o sobrenome Souza com a letra "z", enquanto o paulistano é Sousa, com "s". Os sobrenomes das mães de ambos são diferentes, assim como o nome e a idade dos pais. Além disso, há uma diferença de idade entre os dois Ailtons de 12 anos.
"A primeira pergunta que o delegado me fez foi: você já foi pro Mato Grosso? Eu falei 'não, nem sei onde fica'. Ele olhou: 'Ah, tá. Pode liberar'", contou Ailton sobre a primeira detenção, quando foi retirado de dentro de casa.
Após a quarta abordagem, Ailton recorreu à Defensoria Pública, que entrou com pedidos junto ao Smart Sampa e ao sistema judiciário. "Já entrei com pedido junto ao Smart Sampa através de e-mails. Só que até agora a gente não obteve nenhum tipo de resposta", relatou o advogado da defesa.
Enquanto os sistemas não são corrigidos, Ailton vive uma rotina de medo constante. "Eu sei que já aconteceram duas, três vezes, já é a quarta vez e toda vez eu sou levado. Eu não sei o que pode acontecer. Eu fico com medo, mesmo sem dever nada. Você fica com receio, com medo, com vergonha, da situação em si", afirmou.
Procuradas, nem a Prefeitura de São Paulo nem a Secretaria da Segurança Pública souberam dizer quem poderia ter incluído a imagem do paulistano no sistema. A SSP informou ter notificado o Conselho Nacional de Justiça, órgão responsável pelo abastecimento do Banco Nacional de Mandados de Prisão, sobre a inconsistência e também providenciou a remoção dos dados e da fotografia de Ailton da base estadual.
O caso de Ailton não é isolado. Segundo relatório de transparência divulgado pela própria gestão municipal, 23 pessoas já foram conduzidas para delegacias após erros no sistema de reconhecimento facial desde a implementação do Smart Sampa. A Prefeitura alega que nenhuma dessas pessoas foi efetivamente presa, mas os danos psicológicos, sociais e profissionais das detenções indevidas são inegáveis.
O Smart Sampa, principal bandeira da gestão Ricardo Nunes (MDB) na área de segurança, conta atualmente com 40 mil câmeras espalhadas pela cidade. O sistema utiliza reconhecimento facial para identificar foragidos da Justiça e pessoas desaparecidas. Segundo a Prefeitura, já auxiliou na prisão de 2.833 foragidos, 3.670 criminosos em flagrante e na localização de 173 pessoas desaparecidas.
Mas os erros do sistema têm gerado consequências graves. Além das 23 detenções indevidas reconhecidas oficialmente, há relatos de abordagens dentro de unidades de saúde mental (CAPS) e postos de saúde, gerando medo e afastando pessoas que precisam de atendimento médico.