Samba do Cruz, reduto da cultura negra desde 1958, corre risco de despejo pela gestão Nunes
- há 5 dias
- 2 min de leitura
Grêmio fundado por taxistas negros da zona norte pode ser demolido para entrega de terreno à Allegra Pacaembu; abaixo-assinado com mais de 20 mil assinaturas pede reconhecimento como patrimônio cultural imaterial

A Prefeitura de São Paulo, comandada por Ricardo Nunes (MDB), pode despejar a qualquer momento o Grêmio Esportivo Recreativo Cruz da Esperança, sede do popular Samba do Cruz, na zona norte da capital. O local é considerado um dos redutos da cultura negra na cidade e integra o complexo Campo de Marte. A demolição do espaço faz parte da concessão para a iniciativa privada dos campos e espaços dos clubes que ocupam a área do ente municipal.
O terreno de 385 mil metros quadrados será gerido pela Concessionária Campo de Marte SPE S/A, que venceu o edital de concessão finalizado no início do ano passado. A concessionária é liderada pela empresa Progen S.A, formada por donos da Allegra Pacaembu, que administra o estádio. O mesmo grupo que gere o Pacaembu (ainda não entregue e com dívidas e escândalos aos montes) agora avança sobre o Campo de Marte, repetindo a lógica de entregar espaços públicos à gestão privada focada na lucratividade.
No último dia 12 de março, a prefeitura executou despejo no Aliança da Casa Verde, um dos seis clubes de várzea que ocupam o complexo. O movimento da gestão Ricardo Nunes (MDB) acontece para que o terreno de 385 mil metros quadrados seja entregue "livre e desimpedido" à concessionária. O Cruz da Esperança teme ser o próximo alvo.
“Fundado em 12 de outubro de 1958 por um grupo de taxistas pretos. Ao longo de mais de seis décadas, o espaço consolidou-se como importante ponto de convivência comunitária, sociabilidade e preservação cultural, sendo referência para o samba de raiz, para o futebol de várzea e para práticas culturais associadas à cultura negra paulistana”, diz um trecho da carta que compõe o abaixo-assinado lançado pela comunidade do clube.
Além dos jogos de futebol de várzea, o Cruz da Esperança também realiza eventos de samba durante os finais de semana, as atividades ajudam o clube a manter as despesas de uniformes, campeonatos e manutenção do espaço que também dispõe de bares. O Samba do Cruz, surgido em 2011 a partir das rodas que aconteciam após as peladas de fim de semana, tornou-se referência na cena cultural da zona norte paulistana.
A possibilidade iminente da demolição da sede do Cruz motivou a busca por apoio da população que frequenta o local. O documento soma mais de 20,5 mil assinaturas, segundo Tio Toninho, dirigente do time.
Junto a essa iniciativa, a vereadora Amanda Paschoal (PSOL-SP) apresentou na Câmara Municipal de São Paulo um projeto para reconhecer o Grêmio Cruz da Esperança como patrimônio da nossa cidade.
O abaixo-assinado também quer a abertura de canal institucional de diálogo entre o Poder Público, a concessionária responsável pelo projeto do Parque Campo de Marte e a diretoria do Cruz da Esperança e a adoção de medidas que assegurem a proteção da memória cultural associada ao Cruz da Esperança, ao atual samba do Cruz e às demais manifestações culturais do território, reconhecendo sua relevância para a história e identidade cultural da cidade.



Comentários