Tarcísio corta 34% do orçamento de segurança hídrica, mas cogita tarifa de contingência para população
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Governador que reduziu recursos para combate à crise hídrica avalia cobrar mais dos cidadãos; especialista aponta contradição absurda

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou nesta quinta-feira (19) que não descarta a adoção de uma tarifa de contingência na Sabesp para enfrentar eventual crise hídrica no estado. A declaração revela uma contradição gritante: enquanto considera cobrar mais da população, Tarcísio cortou 34% do orçamento estadual destinado à segurança hídrica em 2026.
O Sistema Cantareira opera atualmente com 33,3% do volume útil, índice que chegou a 19% em dezembro. Questionado se adotaria a mesma estratégia utilizada na crise de 2014 e 2015, quando a Sabesp instituiu cobrança adicional para consumidores que ultrapassassem a média de consumo, Tarcísio foi enfático: "nada está descartado".
Na crise anterior, a tarifa de contingência previa acréscimo na conta para quem consumisse acima da média, podendo chegar a 100% de aumento. Agora, o governador avalia repetir a medida, mas sem assumir a responsabilidade pelo desinvestimento que agravou a situação.
O orçamento estadual aprovado pela Assembleia Legislativa prevê R$ 1,37 bilhão para segurança hídrica em 2026, em comparação com os R$ 2,1 bilhões de 2025. A redução também atingiu a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, que teve queda de 18,5%.
Para Amauri Pollachi, conselheiro do Observatório Nacional dos Direitos à Água e Saneamento, a redução revela que o governo estadual não tem uma política clara de atuação em segurança hídrica. Segundo ele, reduzir o orçamento no ano em que talvez se tenha a pior crise hídrica deste século é uma contradição absurda.
Entre as ações mais afetadas está a implantação do Sistema Adutor Regional e das Barragens Duas Pontes e Pedreira, que teve queda de 57,5%, passando de R$ 910,5 milhões para R$ 387 milhões. A implantação de infraestrutura para proteção de mananciais teve recuo de 33%.
O combate a enchentes também sofreu corte significativo. A implantação de sistemas de drenagem foi reduzida em mais de 55%, de R$ 314,8 milhões para R$ 140,6 milhões. O corte ocorre enquanto o estado enfrenta chuvas intensas que já mataram ao menos 11 pessoas desde o início do verão.
A estratégia de Tarcísio evidencia um padrão: desinvestir em políticas públicas essenciais e depois transferir o ônus para a população. O governador cortou recursos que poderiam prevenir a crise hídrica, mas agora estuda fazer o cidadão pagar mais caro pela água.
A contradição se aprofunda com a privatização da Sabesp, que torna alterações na arrecadação da companhia mais complexas. O governo resistiu em adotar medidas que impactassem a tarifa durante a crise, mas agora sinaliza disposição em jogar tudo nas costas da população, que já sofre com o desabastecimento causado pela falta de investimentos.



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